UNIRIO
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Centro de Letras e Artes
Departamento de Teoria do Teatro
Crítica Teatral Ensaística (CTE - 2008.1)

14.5.08

O mito do sistema teatral brasileiro

O MITO DO SISTEMA TEATRAL BRASILEIRO
Ao analisarmos o teatro que é realizado no Brasil e os seus modos de produção, desde a escolha do texto, a maneira sobre o qual ele é realizado e pra quem se destina a peça, veremos que a coisa não mudou desde que foi iniciada a atividade teatral profissional com a chegada da corte portuguesa ainda no século 19: uma certa estrutura que jamais deixou de atuar no teatro brasileiro.
Para nos determos em um exemplo temos em cartaz no Rio de Janeiro, que estreou em Março, OTELO, de William Shakespeare. A peça é um dos maiores clássicos do autor inglês publicada pela primeira vez em 1622, no entanto a composição é datada de 1604.
Nessa história além da discussão em torno da traição e inveja com o personagem Iago tramando a morte do General Otelo, a peça aborda temas que estão presentes na Inglaterra de Shakespeare e em nossa sociedade atual: o preconceito racial, religioso e o preconceito contra o estrangeiro. O personagem Iago diz num momento da peça “... agora mesmo, neste momento, um velho bode negro, está cobrindo vossa ovelha branca.” Ou na fala de Otelo “e cuja, a mão tal como um vil judeu, jogou fora uma pérola mais rica que toda a sua tribo...” para explicitar dois momentos de preconceitos presentes na peça.
Discussões como a união de um mouro com uma branca, o contraste entre realidade e aparência (no caso de Iago) o ciúme injustificado, a fragilidade humana, a critica política, a, peça fala ainda de posições de poderes entre diversos cargos do exército. Temas bastante peculiares da sociedade contemporânea. Temas que naquela sociedade quanto na atual são capazes de gerar guerra, provocar mortes e dividir mundos. Diante de um texto desses porque não levar esse drama aos palcos e provocar uma reflexão?
Será que foi esse o motivo que fez o ator Diogo Vilela entrar em cartaz com a peça no SESC Ginástico? A montagem traz no seu elenco o ator bastante conhecido do público, por sua carreira no teatro, na televisão e no cinema. Prestes a estrear o ator justificou a montagem numa entrevista como publicou o jornal FOLHA DE SÃO PAULO, no dia trinta de dezembro de 2007: "Por que temos tanta inveja? Qual o significado dela se somos [os brasileiros] pessoas tão bem resolvidas em termos de raça? Por que a inveja fica tão coerente com a sensação contemporânea?" Quem indaga é o ator Diogo Vilela, 50 anos, que recorreu a William Shakespeare ("Depois de Cristo, quem mais clareou as idéias de todo mundo") para obter respostas.
Na mesma entrevista o ator-diretor-produtor de Otelo, diz não saber como fazer uma peça de época (???) no calor de 40 graus do Rio de janeiro. Ainda segundo ele, a ordem para encenar partiu de Paulo Autran. Vilela teme ser esquecido enquanto artista e diz que essa ansiedade o faz criar. Nessa mesma entrevista o ator crítica a Broadway, que ele considera como um teatro Disneylândia, ‘fake’ e que devíamos usar nossa espontaneidade para criar musicais brasileiros.
Embora o discurso de promoção da peça seja bastante convincente, o que vemos no palco é um teatro velho, já esgotado, textocêntrico, com cheiro de mofo, que não propõe nada de novo e só serve para o ator colocar seus recursos histriônicos para entrar no hall dos grandes atores que montam clássicos. Parece que o palco é um lugar onde possa ver visto, lembrado não só pelo público, mas por todas as outras mídias, tal como TV e cinema.
No entanto senão fosse pelo texto, a direção e os atores não apontam nenhuma abordagem relevante. A direção opta por uma encenação realista, não opta pelo desafio, nem pelo tencionamento que qualquer elemento que o texto poderia sugerir. É tudo muito certo, limpo, e para falar num termo palpável, careta. Ao final do primeiro ato fica a pergunta: Porque que está sendo encenado esse texto? Porque levá-lo ao palco? Fica claro que não há por parte dos atores, produção e direção a reflexão que o teatro pode (ou poderia) proporcionar. Não só enquanto temas do próprio texto como em termos estéticos e culturais. Principalmente pelo fato da encenação não propor diálogo algum com as questões referidas no texto e a sociedade contemporânea, não que o que esteja sendo dito é colocar o calçadão de Copacabana ou falar das favelas para que aí sim, esteja estabelecida alguma conexão, mas porque é importante ressaltar quais são projeto artísticos de atores que alcançam um status como o de Diogo e sua questão ao encenar um clássico, e também para refletir um perfil do que é uma característica de um teatro que vigorou até os nossos dias. Teatro que muitas vezes é aclamado pelo público e que em determinados momentos acaba por castrar um projeto de superação a esse sistema teatral que se implantou nos palcos brasileiros.
Se analisarmos o teatro realizado no Brasil através do texto de Tânia Brandão*, podemos contatar que esse sistema de fazer teatro vigora em nossos palcos desde os anos de 1920, e que por mais que haja um esforço por novas formas, prevalece segundo o que ela chama de “Divismo tropical”, ou seja, o resultado de certa forma de consagração dos artistas e que esses ficariam encerrados em suas personalidades ímpares do que a associados a determinadas poéticas. É uma espécie de acordo com o público, já está estabelecido o que vai ver e o que vai sentir. Na sua análise ainda, ela diz que é como se o palco girasse em torno de si mesmo, conduzindo a um eterno retorno, como se o teatro brasileiro sempre voltasse ao ponto de partida, e por isso, nunca saísse do lugar. O teatro brasileiro está sempre a favor da multidão, da identificação com o público, com o histrionismo dos atores do que quaisquer tentativas de tencionar os padrões e culturais e estéticos.
Esse mecanismo teatral vem desde o século 19 com a construção do Real Teatro Português (1813) e todo o ardor do ator romântico João Caetano (1906-1970) depois dele a investida em mitos do teatro sucede até os dias de hoje. Tivemos Itália fausta, Procópio Ferreira (1808-1979), Jaime Costa (1897-1967), Oscarito (1906-1970), e Dulcina de Morais (1911-1986). Todos eles com notáveis talentos e mitos de sua época, muitos deles como Dulcina de morais tiveram suas companhias. E através destas que quase sempre recebia o nome do seu ator/atriz, servia para realizar os trabalhos que dignificariam ainda mais o seu ator/atriz principal.
Qual o paralelo com a montagem de Otelo, com Diogo Vilela? Embora seja um texto de uma densidade do tamanho do seu autor, é interpretando Shakespeare que uma parte de atores recorre quando almejam serem aclamado com status de estrela ou querem se tornar mitos. Numa outra entrevista para o jornal O GLOBO, Vilela afirma que aos 60 anos quer encenar Rei Lear.
No caso de Otelo, a peça não consegue atingir o espectador com suas tramas, trapaças e mentiras, e encenação é extremamente italiana, salvo os momentos “à parte” descrita no texto do autor quando quebra a quarta parede, mesmo assim, só o ator Diogo Vilela parece falar com a platéia, enquanto os outros atores exercitam uma autoconsciência de seus personagens.
É como se a encenação estivessem feita por atores do TBC, tal o requinte da montagem, é como se estivéssemos vendo um teatro claro que com suas ressalvas, quase possível de ser montado pelo próprio Shakespeare já o único fator de diálogo com o contemporâneo (recurso, aliás, quase sempre utilizado quando se pretende ser contemporâneo) é um telão ao fundo com imagem de um alto mar à noite com uma lua cheia, para representar a noite escura, as maldades e calúnias quase sempre feitas sem que ninguém note, feita na obscuridade, principalmente por Iago. A lua cheia que simboliza casais apaixonados (deve ser isso!!) e também para que o espectador fique sensibilizado com aquele telão enorme e com uma imagem tão bela.
A tradução escolhida para a encenação foi uma que favorece Iago, personagem interpretado por Diogo, e com isso esvazia-se a tensão da peça, até porque tem um lado de comicidade no texto e também na interpretação do ator. Não há duvidas que o ator esteja muito bem no domínio de cena, com público e na interpretação porque afinal de contas parece que para isso que o texto foi montado. Isso é notável, estampado e impresso em todo o material de divulgação da peça, a foto no programa apenas o ator- protagonista-produtor-diretor, e abaixo dela o titulo da peça. Ao ponto de uma espectadora achar que Diogo era Otelo. Porque segundo ela, no cartaz o ator está como OTELO.
É claro que é o nome de Diogo que capta patrocínios, consegue divulgação em diversas mídias, consegue críticas, e leva público ao teatro, e deve ser uma cobrança de todos esses veículos unirem a sua imagem com a de Vilela, mas nessa situação o projeto de divulgação deveria ser outro, ou o nome da peça deveria ser IAGO. Afinal não é um projeto de consolidação de um grande ator?
Com esse modo de produção teatral que impera no Brasil (até por que Vilela não é o único) em 2008 fica claro que continua se mantendo o sistema teatral vigem desde os anos 20.
Talvez essa tenha sido a ultima geração a pensar em se tornar grandes mitos, talvez pela Era do encenador que vem se esgotando no fim dos anos 90, esses sim foram os últimos grandes mitos que surgiram no teatro, talvez por essa geração que sucede os grandes encenadores e a própria geração de Diogo tenha sido instigada a mudar o “fazer” teatral no Brasil. Pelo menos até que apareçam novos mitos e perpetuem ainda mais o teatro histriônico dos atores e este mais uma vez acabe por sufocar a tentativa de superação a esses sistema.

5 comentários:

Raphael Cassou disse...

Lamentável ver que não há evolução no meio teatral porque, ao que parece, vem em primeiro lugar o ego de determinado artista em detrimento de uma proposta artística. O verdadeiro teatro valoriza o coletivo. Apostar nisso é ponto determinante para se conseguir qualidade e relevância. Vide exemplos vitoriosos de montagens shakepearianas em palcos brasileiros, caso de "Romeu e Julieta" do grupo Galpão, onde a grande estrela é o trabalho coletivo e, mais recentemente a montagem de Os 2 Cavaleiros de Verona do grupo Nós do Morro. Em ambos o trabalho de grupo sobressai à figura de um ator específico.
Creio que a montagem de Diogo Vilela deveria ter investido em uma montagem calcada na coletividade, onde sem dúvidas o talento e a experiência do ator alcançaria grande destaque.

Verônica Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Verônica Fernandes disse...

Num momento em que se deseja transformar as formas teatrais, os atores têm a oportunidade de tomar em suas mãos a arte do teatro. Mas muitos ainda estão preocupados em demonstrar seu virtuosismo, tentando a todo custo se tornar um mito, ofuscando o verdadeiro sentido da obra, fugindo da discussão negando o diálogo com o texto, tornando-se o eixo em busca da imortalidade.
Navegando na internet me deparei com um vídeo, fragmento de um documentário chamado “Além Hamlet”, que se propõe a mostrar os bastidores do processo da montagem de Hamlet que irá a cartaz em São Paulo com o ator Wagner Moura no papel título. Além de servir como divulgação, esse documentário teria o propósito de revelar ao público o processo de construção da obra, abrindo um novo espaço para o teatro, discussão que apresento no “Ensaio Virtual” postado nesse blog, mas na verdade o documentário irá ao ar em “pílulas” no canal privado Multishow. O que nos resta é acompanhar, para saber se essa será mais uma forma de se utilizar clássicos teatrais para a construção de mais um mito, ou se este processo nos trará novas discussões.
Valeu Gabriel Garcia, por nos trazer essa discussão.

Verônica Fernandes disse...

"Além Hamlet"
Para quem quiser conferir a "primeira pílula" do documentário o site é http://oglobo.globo.com/cultura/kogut/post.asp?t=veja_as_imagens_de_alem_hamlet_de_sandra_delgado&cod_Post=97823&a=12

Dâmaris Grün disse...

O pior é pensar que existe uma fórmula, uma forma de encenar Shakespeare e outros clássicos. O que villela entende quando diz achar complicado fazer uma peça de época no rio de Janeiro? De que época ele se refere? Se ele mesmo diz ser tão contemporâneo o tema inveja, por que fala de uma época tão remota e realiza uma encenação calcada no histrionismo, na falta de contato com o público, nos trajes que não suportam o clima da cidade?Jan Kott em seu "Shakespeare, nosso contemporâneo" declara: Não importa e não há forma correta de encenar Hamlet ou qualquer peça do autor inglês,num palco italiano, numa arena,numa praça, numa "cave",de jeans, de trajes que tentem recuperar uma época,de clown...o que interessa são as questões contidas no texto serem questões,de alguma forma,que movam que hoje as encenam. Lembre-se de Ensaio.Hamlet,da CIA Dos Atores, uma bela e pungente "demolição,desconstrução,atualização" de um clássico tão atual!