UNIRIO
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Centro de Letras e Artes
Departamento de Teoria do Teatro
Crítica Teatral Ensaística (CTE - 2008.1)

6.5.08

Zé Celso sob a ótica do entendimento popular

Zé Celso sob a ótica do entendimento popular

por Gabriela Vieira.



- Nossa o que significa isso? O que esta coisa está fazendo aí?
- Não gostei, não entendi nada !!!
- Por que essas pessoas estão nuas?
- Ah, na hora do ensaio rola uma grande orgia.
- Achei na verdade uma grande bagunça.

Quem nunca se deparou com tais comentários, durante ou depois de uma apresentação teatral - ou até cinematográfica, mas neste caso as questões aqui pretendidas se tornam menos polêmicas - vindas de amigos ou de qualquer outra pessoa presente na platéia? Pois então, eu também não fico fora desse grupo, tanto de quem profere os comentários quanto de quem ouve e foi por tais comentários que meu interesse por conhecer e entender a estrutura e o funcionamento do teatro nasceu.
Percebe-se atualmente uma preocupação cada vez maior dos grupos teatrais com relação à comunicação entre espetáculo e platéia, entre o ator e o espectador que em alguns casos têm-se a necessidade de uma interação maior traduzida em participação ou intervenção direta do espectador. Preocupação esta que faz aparecer muitas questões: como fazê-la? Realmente preciso – eu ator- me comunicar com o público? O público precisa entender o que está sendo representado naquele instante de espetáculo? Será que o espectador irá ler o símbolo na mesma perspectiva que a do diretor/autor ou adaptador?O espetáculo pretende que uma mensagem seja captada? Esta peça irá produzir o mesmo efeito em qualquer público? Essas questões podem ser claramente respondidas dependendo da intenção do projeto ou proposta de cada grupo teatral. E diante deste problema da comunicação proponho fazer uma reflexão, algo entre a intenção e a prática, diante do projeto de Zé Celso Martinez Correa dentro do Grupo Oficina sem, portanto, colocar em questão a qualidade do trabalho, pois acredito que sendo o espetáculo teatral experimental, clássico, de ruptura, abstrato ou qualquer outra forma ele deve transmitir algo que o espectador consiga captar para que se complete a comunicação. Senão a atividade teatral fica entendida como mero entretenimento.
Na apresentação do último espetáculo do grupo Oficina “Os Sertões”, adaptado da obra de Euclides da Cunha, me deparei com alguns dos comentários citados no início o que me levou a procurar entender como aquela história foi transposta para o palco, tentando buscar a problematização da tradução diante de uma proposta de um teatro para todos, de um teatro democrático que é colocado por Zé Celso em várias de suas entrevistas que pude ler:

“ ... a posição do Oficina é uma posição radicalmente cultural, acredita que a arma que existe para combater a violência, para combater a pobreza, para combater a desigualdade é a cultura. A cultura aliada à educação... E o teatro tem uma coisa: se ele é forte, tem que tocar todos os seres humanos.”

A questão da educação posta pelo diretor está relacionada com a função didática do teatro, o exercício teatral não forma apenas alunos, mas pessoas. A proposta da cultura aliada à educação em vistas do popular e do democrático podemos encontrar no modo de trabalho e construção dos espetáculos feito pelo grupo onde a criação é inteiramente coletiva. Quem faz o teatro do Oficina é educado para aquela forma de representação, que como se pode perceber não é nada convencional, tornando-se principalmente livre de preconceitos e tabus. Mas e a função educacional diante da platéia? Pois o que me pareceu foi que, talvez, o espectador teria que ser educado antes de assistir ao espetáculo, para que possa tentar entender ou absorver alguma mensagem antes de formular opiniões e comentários precipitados. Só para exemplificar, o que foi exposto acima, poderíamos citar o tempo de duração do espetáculo, tudo bem que está dentro de uma proposta especifica, mas se torna um obstáculo na intenção de popularização não só pela estranheza e cansaço que provoca mas também pela sua inviabilidade dentro de um cotidiano apressado e difícil em que vivemos.

“O público não vai ao teatro para refletir.”

Por isso quando se coloca uma ideologia em cena, obriga-se o espectador ao entendimento através do conhecimento de tal pensamento ideológico que criou simbologias que muitas vezes se tornam incompreensíveis diante de pessoas que vão ao teatro por lazer, mesmo que com viés educacional e não por serem profissionais da área, interessados ou que já tenham sido educados – pois estes provavelmente, diante de uma pesquisa, procurariam elucidar os símbolos .
Podemos observar nos comentários de Zé Celso a preocupação em atingir os diversos tipos de pessoas e o seu modo de transmissão acaba sendo classificado - como já ouvi – de “burguês”, de coisa para “intelectual”, sem finalidade, arte pela arte. Refiro-me a este trabalho por ser o mais recente a me despertar tais questões, mas existem muitos outros exemplos onde alguns símbolos não ficam claros, não que devam ter clareza, mas que acabam sendo deturpados pelo público e atrapalhando na intenção de comunicação da representação. O teatro não pode “estar dado” apenas na zona sul – me refiro aqui ao contexto carioca – mas na zona norte, na baixada, etc.
Claro que essas são apenas algumas impressões que tentei comentar, que precisam de aprofundamento e pesquisa mais detalhada, mas que não deixam de me causar preocupação no que diz respeito à função do teatro como complementar à educação, ao seu fácil acesso e à sua capacidade de despertar interesse em qualquer lugar ou pessoa independente de cultura ou classe social porque: “O teatro assim como o futebol , deve ser o esporte das multidões”.


*os grifos são comentários de Zé Celso retirados de entrevistas concedidas disposta na página virtual http://www.dw-world.de/dw/article/0,2144,1217894,00.html e na página da revista caros amigos www.carosamigos.com.br

Um comentário:

Dâmaris Grün disse...

Gabi, não acho que o teatro e qq manifestação artística deva ter um fim didático. Se existe um didatismo, ele se encontra na sua técnica, na sua forma, em como comunica-se ( ou não!).Acho que mais que fazer refletir criticamente sobre determinados assuntos, o OFICINA propõe e coloca o público em diversos estados sensoriais, cria sentidos, coloca-o em lugares nào muito confortáveis às vezes, outras em estado de prazer intenso. Pra mim, é o lugar do verdadeiro encontro entre ator/espectador, por que ninguém sai como entrou depois de um espetáculo de Zé Celso. Pra bem ou pra mal.